(Borguereau, Amour a laffut.)
O amor é aquilo que não conhecemos pelo afirmar de nossa rudez, e sem requerer gratidão - só por vontade - mantém tudo o que conhecemos como está, por compaixão, pois nossos olhos e nosso sistema nervoso não suportaria tal esclarecimento repentino. Agora vamos ouvir a música que vem da infinitude, ser o que bebe o anjo bebê em tua veia e via. - Oh, holly mother.
Inspirai-nos, Mr. Rilke...
Aos Olhos dos Anjos
Aos
olhos dos Anjos, os cimos das árvores
são
talvez raízes que bebem os céus;
e,
no céu, as raízes profundas de uma faia
parecem-lhes
cumeeiras de silêncio.
Não
será que, para eles, a terra é transparente,
face
a um céu cheio como um corpo?
Esta
terra ardente onde o olvido dos mortos
se
lamenta e chora - à beira das nascentes.
A Pantera
(No Jardin des Plantes, Paris)
De
tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.
A
onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.
De
vez em quando o fecho da pupila
se abreem silêncio. Uma
imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.
se abre
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.
(Tradução:
Augusto de Campos)
Primeira Elegia
Se
eu gritar, quem poderá ouvir-me, nas hierarquias
dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse
para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua
natureza mais potente. Pois o belo apenas é
o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,
e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha
destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.
Por isso me contenho e engulo o apelo
deste soluço obscuro. Ai de nós, mas quem nos poderia
valer? Nem Anjos, nem homens,
e os argutos animais sabem já
que nós no mundo interpretado não estamos
confiantes nem à vontade. Resta-nos talvez
uma árvore na encosta que possamos rever
diariamente; resta-nos a rua de ontem
e a fidelidade continuada de um hábito,
que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu.
Oh, e a noite, a noite, quando o vento, cheio do espaço do universo
nos devora o rosto -, por quem não permaneceria ela, a desejada,
suavemente enganadora, que com tanto esforço se ergue frente
ao coração isolado? Será ela para os amantes menos dura?
Ah, um como o outro eles se ocultam de sua própria sorte, apenas.
Acaso não o saibas já? Lança de teus braços o vazio
em direcção aos espaços que respiramos; talvez que as aves
num voo mais íntimo sintam o ar assim expandido.
Sim, na verdade as Primaveras precisavam de ti. Muitas estrelas
aguardavam que nelas reparasses. Para ti
se erguia uma vaga no findo passado; ou,
ao passares por uma janela aberta,
um violino entregava-se-te. E tudo isso era para ti uma missão.
Mas soubeste cumpri-la? Não te distraía a contínua
expectativa, como se tudo te anunciasse
a Amada? (Como a poderias acolher em ti,
se grandes e estranhos pensamentos te invadem
ou abandonam ou em ti permanecem ao longo da noite?)
Se porém estás saudoso, canta as Amantes, cujo
celebrado sentir todavia está longe de ser imortalizado.
Canta, e como tu as invejas quase, as que foram abandonadas, cujo amor
te parece maior, do que o daquelas que o viram apaziguado. Não cesses
de recomeçar esse sempre insuficiente louvor;
e pensa: o herói dura sempre; até a sua queda mais não foi
do que o simples pretexto para o seu derradeiro nascimento.
Mas as Amantes são acolhidas de novo na esvaída natureza,
pois as forças que tudo isto produzem
não existem duas vezes. Terás tu cantado de Gaspara Stampa
já suficientemente a lembrança, para que a jovem mulher
a quem o amado deixou, possa sentir
pelo sublime exemplo de uma tal Amante: Ah, ser como ela!
Não será tempo de estas dores antiquíssimas se tornarem
finalmente fecundas? E não será tempo de nós,
os que amamos, nos libertarmos de quem amamos, como trémulos vencedores?
De sermos como a flecha que, vencendo o arco, se solta, toda ímpeto,
passando a ser mais do que ela própria? Pois em nenhum lugar se permanece imóvel.
dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse
para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua
natureza mais potente. Pois o belo apenas é
o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,
e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha
destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.
Por isso me contenho e engulo o apelo
deste soluço obscuro. Ai de nós, mas quem nos poderia
valer? Nem Anjos, nem homens,
e os argutos animais sabem já
que nós no mundo interpretado não estamos
confiantes nem à vontade. Resta-nos talvez
uma árvore na encosta que possamos rever
diariamente; resta-nos a rua de ontem
e a fidelidade continuada de um hábito,
que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu.
Oh, e a noite, a noite, quando o vento, cheio do espaço do universo
nos devora o rosto -, por quem não permaneceria ela, a desejada,
suavemente enganadora, que com tanto esforço se ergue frente
ao coração isolado? Será ela para os amantes menos dura?
Ah, um como o outro eles se ocultam de sua própria sorte, apenas.
Acaso não o saibas já? Lança de teus braços o vazio
em direcção aos espaços que respiramos; talvez que as aves
num voo mais íntimo sintam o ar assim expandido.
Sim, na verdade as Primaveras precisavam de ti. Muitas estrelas
aguardavam que nelas reparasses. Para ti
se erguia uma vaga no findo passado; ou,
ao passares por uma janela aberta,
um violino entregava-se-te. E tudo isso era para ti uma missão.
Mas soubeste cumpri-la? Não te distraía a contínua
expectativa, como se tudo te anunciasse
a Amada? (Como a poderias acolher em ti,
se grandes e estranhos pensamentos te invadem
ou abandonam ou em ti permanecem ao longo da noite?)
Se porém estás saudoso, canta as Amantes, cujo
celebrado sentir todavia está longe de ser imortalizado.
Canta, e como tu as invejas quase, as que foram abandonadas, cujo amor
te parece maior, do que o daquelas que o viram apaziguado. Não cesses
de recomeçar esse sempre insuficiente louvor;
e pensa: o herói dura sempre; até a sua queda mais não foi
do que o simples pretexto para o seu derradeiro nascimento.
Mas as Amantes são acolhidas de novo na esvaída natureza,
pois as forças que tudo isto produzem
não existem duas vezes. Terás tu cantado de Gaspara Stampa
já suficientemente a lembrança, para que a jovem mulher
a quem o amado deixou, possa sentir
pelo sublime exemplo de uma tal Amante: Ah, ser como ela!
Não será tempo de estas dores antiquíssimas se tornarem
finalmente fecundas? E não será tempo de nós,
os que amamos, nos libertarmos de quem amamos, como trémulos vencedores?
De sermos como a flecha que, vencendo o arco, se solta, toda ímpeto,
passando a ser mais do que ela própria? Pois em nenhum lugar se permanece imóvel.
Vozes,
vozes. Ouve-as, ó meu coração, como outrora apenas
os santos as ouviam: de tal modo que o apelo imenso
os erguia do solo; contudo permaneciam ajoelhados,
inconcebivelmente, a isso destentos:
ouvir: era assim todo o seu estar. Mas tu não poderias sequer em ti escutar
a voz de Deus. Ouve, porém, o sopro, ininterrupta mensagem
que a ti chega, modelado no silêncio.
E agora ouves o murmúrio dos jovens que morreram.
Na verdade, onde quer que entrasses, fosse
em igrejas de Roma ou de Nápoles, não era o destino deles que no silêncio te interpelava?
Ou, então, uma inscrição sublime te impressionava,
como a da lápide que há pouco visteem Santa Maria Formosa.
Qu e esperam todos eles de mim? tenho de serenamente
retirar-lhes
o véu de injustiça que por vezes perturba
o puro movimento dessas almas.
os santos as ouviam: de tal modo que o apelo imenso
os erguia do solo; contudo permaneciam ajoelhados,
inconcebivelmente, a isso destentos:
ouvir: era assim todo o seu estar. Mas tu não poderias sequer em ti escutar
a voz de Deus. Ouve, porém, o sopro, ininterrupta mensagem
que a ti chega, modelado no silêncio.
E agora ouves o murmúrio dos jovens que morreram.
Na verdade, onde quer que entrasses, fosse
em igrejas de Roma ou de Nápoles, não era o destino deles que no silêncio te interpelava?
Ou, então, uma inscrição sublime te impressionava,
como a da lápide que há pouco viste
Qu
o véu de injustiça que por vezes perturba
o puro movimento dessas almas.
É
certo ser estranho não mais habitar a terra,
não mais agir conforme o que mal acabáramos de aprender,
não mais dar às rosas e a todas as outras coisas identicamente promissoras
o significado do humano futuro;
não mais ser o que se tinha sido
em infinitamente angustiadas mãos, e abandonar até
o próprio nome, como se fosse um brinquedo quebrado.
É estranho não mais desejos desejar. Estranho,
passar a ver sem conexão, disperso pelo espaço,
tudo o que antes tinha unidade. Estar morto
é laborioso e cheio de recomeços, até que aos poucos
nos apercebamos da eternidade. - Mas todos os vivos
cometem o erro de fazer distinções demasiado rígidas.
Os Anjos, diz-se, não sabem muitas vezes se se movem
por entre os vivos ou por entre os mortos. A eterna corrente
consigo arrasta incessantemente todas as idades,
através destes dois domínios, e o seu som a ambos se impõe.
Afinal, de nós já não precisam aqueles que tão cedo nos foram arrebatados,
suavemente se vai perdendo o gosto pelo que é terreno, tal como ao crescer
nos desprendemos da doçura do peito materno.
Mas nós, que de tão grandes mistérios necessitamos, nós para quem o luto é tão frequentemente a fonte de feliz amadurecimento -: poderíamos sem eles existir?
Ou será vã a lenda de que foi outrora, ao prantear-se Lino,
que a primeira música ousou penetrar na aridez do espanto?
Então, apenas quando esse jovem, quase um deus, de súbito
no espaço do terror para sempre se ocultava, o vazio
atingiu por fim a vibração que agora nos arrebata, nos consola, nos ajuda.
não mais agir conforme o que mal acabáramos de aprender,
não mais dar às rosas e a todas as outras coisas identicamente promissoras
o significado do humano futuro;
não mais ser o que se tinha sido
em infinitamente angustiadas mãos, e abandonar até
o próprio nome, como se fosse um brinquedo quebrado.
É estranho não mais desejos desejar. Estranho,
passar a ver sem conexão, disperso pelo espaço,
tudo o que antes tinha unidade. Estar morto
é laborioso e cheio de recomeços, até que aos poucos
nos apercebamos da eternidade. - Mas todos os vivos
cometem o erro de fazer distinções demasiado rígidas.
Os Anjos, diz-se, não sabem muitas vezes se se movem
por entre os vivos ou por entre os mortos. A eterna corrente
consigo arrasta incessantemente todas as idades,
através destes dois domínios, e o seu som a ambos se impõe.
Afinal, de nós já não precisam aqueles que tão cedo nos foram arrebatados,
suavemente se vai perdendo o gosto pelo que é terreno, tal como ao crescer
nos desprendemos da doçura do peito materno.
Mas nós, que de tão grandes mistérios necessitamos, nós para quem o luto é tão frequentemente a fonte de feliz amadurecimento -: poderíamos sem eles existir?
Ou será vã a lenda de que foi outrora, ao prantear-se Lino,
que a primeira música ousou penetrar na aridez do espanto?
Então, apenas quando esse jovem, quase um deus, de súbito
no espaço do terror para sempre se ocultava, o vazio
atingiu por fim a vibração que agora nos arrebata, nos consola, nos ajuda.
In As
Elegias de Duíno, tradução de Maria Teresa Dias Furtado,
Assírio
& Alvim, Setembro de 1993.
Todo
o Anjo é terrível. No entanto, ai de mim!
pelo canto vos invoco, aves da alma quase mortais,
por saber o que sois. Para onde foram os dias de Tobias,
quando um de entre os mais luminosos apareceu, no simples limiar da entrada,
um pouco diferente, em traje de viagem, já nada aterrador;
(Um jovem para outro jovem, quando este curiosamente olhou para o exterior).
Mas se agora esse Arcanjo dos perigos, de detrás das estrelas,
descesse até nós, um só passo que fosse, o nosso coração,
pulsando violentamente, far-nos-ia perecer. Quem sois, afinal?
pelo canto vos invoco, aves da alma quase mortais,
por saber o que sois. Para onde foram os dias de Tobias,
quando um de entre os mais luminosos apareceu, no simples limiar da entrada,
um pouco diferente, em traje de viagem, já nada aterrador;
(Um jovem para outro jovem, quando este curiosamente olhou para o exterior).
Mas se agora esse Arcanjo dos perigos, de detrás das estrelas,
descesse até nós, um só passo que fosse, o nosso coração,
pulsando violentamente, far-nos-ia perecer. Quem sois, afinal?
Seres
desde o início felizes, excessos da Criação,
cumeadas, cimos no alvorecer
de tudo o Criado -, pólen da floração divina,
elos de luz, cadências, escadarias, tronos,
espaços de puro ser, escudos de deleite, tumultos
de um deslumbrado sentir impetuoso e, de súbito, cada um
é um espelho: e a sua beleza irreprimível
de novo é recolhida no seu próprio rosto.
cumeadas, cimos no alvorecer
de tudo o Criado -, pólen da floração divina,
elos de luz, cadências, escadarias, tronos,
espaços de puro ser, escudos de deleite, tumultos
de um deslumbrado sentir impetuoso e, de súbito, cada um
é um espelho: e a sua beleza irreprimível
de novo é recolhida no seu próprio rosto.
Porém
nós, ao sentir, desvanecemo-nos. Ai de nós,
ao respirar nos extinguimos; de brasido em brasido
vamos perdendo o nosso aroma. E alguém nos diz:
sim, tu corres no meu sangue, tu enches
este quarto, a Primavera... Para quê? Não pode deter-nos,
em si e em seu redor nos ocultamos. E os que são belos,
quem poderá impedi-los de partir? No seu rosto se levanta incessantemente
e se esvai a aparência. Tal como o orvalho matinal sobre a erva
o que é nosso evapora-se de nós, como o calor de um
prato fumegante. Oh, sorrir para onde? Oh, erguer os olhos:
afastando-se ao longe, a onda do coração, nova e cálida -;
ai de mim! é o que nós somos. Ficará nos espaços
em que nos dissolvemos o nosso sabor? Os Anjos apenas
apreenderão o que é seu, o que de si irradia
ou por vezes como por engano algo
de nós neles fica? Haverá nos seus
traços um pouco de nós, tal como o vago
no rosto das mulheres grávidas? Mas tudo isso
lhes é alheio, na vertigem do regresso a si. (Como poderiam aperceber-se disso?)
ao respirar nos extinguimos; de brasido em brasido
vamos perdendo o nosso aroma. E alguém nos diz:
sim, tu corres no meu sangue, tu enches
este quarto, a Primavera... Para quê? Não pode deter-nos,
em si e em seu redor nos ocultamos. E os que são belos,
quem poderá impedi-los de partir? No seu rosto se levanta incessantemente
e se esvai a aparência. Tal como o orvalho matinal sobre a erva
o que é nosso evapora-se de nós, como o calor de um
prato fumegante. Oh, sorrir para onde? Oh, erguer os olhos:
afastando-se ao longe, a onda do coração, nova e cálida -;
ai de mim! é o que nós somos. Ficará nos espaços
em que nos dissolvemos o nosso sabor? Os Anjos apenas
apreenderão o que é seu, o que de si irradia
ou por vezes como por engano algo
de nós neles fica? Haverá nos seus
traços um pouco de nós, tal como o vago
no rosto das mulheres grávidas? Mas tudo isso
lhes é alheio, na vertigem do regresso a si. (Como poderiam aperceber-se disso?)
Se
o entendessem, os Amantes poderiam, na aragem nocturna,
falar de estranhas coisas. Tudo parece ocultar-nos.
Eis que as árvores são; as casas
onde vivemos existem ainda. Apenas nós
passamos por tudo numa troca de ar.
E tudo unanimemente nos silencia, em parte por
vergonha talvez e em parte por indizível esperança.
falar de estranhas coisas. Tudo parece ocultar-nos.
Eis que as árvores são; as casas
onde vivemos existem ainda. Apenas nós
passamos por tudo numa troca de ar.
E tudo unanimemente nos silencia, em parte por
vergonha talvez e em parte por indizível esperança.
Amantes,
a vós, que um no outro vos bastais
pergunto eu por nós. Estendeis as mãos um ao outro. Que provas tendes?
Olhai, as minhas mãos apercebem-se de que
são cada uma delas e o meu rosto gasto
nelas se poupa. Isso dá-me uma ligeira
sensação. Mas quem ousaria só por isso ser?
Porém, a vós que no deslumbramento do outro
cresceis até que ele, subjugado,
vos implora: mais não -; a vós que sob as mãos
tendes maior riqueza do que a das vindimas;
a vós que muitas vezes pereceis só porque o outro
tanto vos excede: eu pergunto por nós. Bem sei,
tocai-vos com tanta felicidade porque as carícias permanecem,
porque não desaparece o lugar que com ternura
cobris, porque debaixo pressentis a pura
permanência. Assim, vos prometeis a quase eternidade
do vosso abraço. Porém, quando vencerdes o susto
do primeiro olhar e a saudade à janela
e o primeiro passeio pelo jardim, uma vez:
continuareis vós, Amantes, a sê-lo do mesmo modo? Quando vos levais
à boca para beber -; bebida por bebida:
como abandona então, estranhamente, o que bebe esse acto de beber.
pergunto eu por nós. Estendeis as mãos um ao outro. Que provas tendes?
Olhai, as minhas mãos apercebem-se de que
são cada uma delas e o meu rosto gasto
nelas se poupa. Isso dá-me uma ligeira
sensação. Mas quem ousaria só por isso ser?
Porém, a vós que no deslumbramento do outro
cresceis até que ele, subjugado,
vos implora: mais não -; a vós que sob as mãos
tendes maior riqueza do que a das vindimas;
a vós que muitas vezes pereceis só porque o outro
tanto vos excede: eu pergunto por nós. Bem sei,
tocai-vos com tanta felicidade porque as carícias permanecem,
porque não desaparece o lugar que com ternura
cobris, porque debaixo pressentis a pura
permanência. Assim, vos prometeis a quase eternidade
do vosso abraço. Porém, quando vencerdes o susto
do primeiro olhar e a saudade à janela
e o primeiro passeio pelo jardim, uma vez:
continuareis vós, Amantes, a sê-lo do mesmo modo? Quando vos levais
à boca para beber -; bebida por bebida:
como abandona então, estranhamente, o que bebe esse acto de beber.
Acaso
não nos surpreendeu nas áticas estelas funerárias a contenção
dos gestos humanos? Não pousavam amor e despedida
nos ombros tão levemente, como se fossem feitos de matéria
diferente da nossa? Recordai-vos das mãos,
suavemente apoiadas sem pressão, ainda que nos torsos haja força.
Senhores de si, cientes: este é o nosso limite,
isto é nosso - tocarmo-nos assim; os deuses
é que nos comprimem com mais força. Mas é próprio dos deuses.
dos gestos humanos? Não pousavam amor e despedida
nos ombros tão levemente, como se fossem feitos de matéria
diferente da nossa? Recordai-vos das mãos,
suavemente apoiadas sem pressão, ainda que nos torsos haja força.
Senhores de si, cientes: este é o nosso limite,
isto é nosso - tocarmo-nos assim; os deuses
é que nos comprimem com mais força. Mas é próprio dos deuses.
Ah,
pudéssemos nós encontrar algo humano
puro, contido, simples, uma estria nossa de terreno fértil,
entre rio e penhascos. Porque o nosso coração nos excede
tal como neles. E não podemos
segui-lo com os olhos em imagens que o apaziguem, nem em
corpos divinos em que, maior, se contém.
puro, contido, simples, uma estria nossa de terreno fértil,
entre rio e penhascos. Porque o nosso coração nos excede
tal como neles. E não podemos
segui-lo com os olhos em imagens que o apaziguem, nem em
corpos divinos em que, maior, se contém.
Amo as horas nocturnas
Amo as horas nocturnas do meu ser
em que se me aprofundam os sentidos;
nelas fui eu achar, como em cartas velhíssimas,
já vivida a vida dos meus dias
e como lenda longínqua e superada.
Delas eu aprendi que tenho espaço
para uma segunda vida, vasta e sem tempo.
E por vezes me sinto como a árvore
que, madura e rumorosa, sobre uma campa
realiza o sonho que o menino foi
(em volta do qual apertam suas raízes quentes)
e perdeu em tristezas e canções.
(In «Poemas As Elegias de Duíno Sonetos a Orfeu»,
Tradução de Paulo Quintela, Edições Asa, 2001)
